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NotíciaFique ligado! Saque de dinheiro chega ao comércio brasileiro até o final do ano


Iniciativas para permitir saques de dinheiro nos estabelecimentos comerciais começam a surgir no Brasil, diante da necessidade de tornar o serviço mais barato e eficiente. A tendência alinha o mercado brasileiro a práticas adotadas há décadas em outros países.

JUL 15, 2020

Fonte: Valor Econômico

Iniciativas para permitir saques de dinheiro nos estabelecimentos comerciais começam a surgir no Brasil, diante da relevância que o papel moeda ainda tem para boa parte da população e da necessidade de tornar o serviço mais barato e eficiente. A tendência pode parecer um contrassenso em meio ao processo de digitalização dos meios de pagamento, que se acelerou com o distanciamento social, mas alinha o mercado brasileiro a práticas adotadas há décadas em outros países.

O movimento mais recente é da TecBan, dona da Rede24Horas controlada pelos principais bancos do país. A empresa lançou ontem a modalidade de saque no varejo, que estará disponível para os clientes de cerca de cem instituições financeiras, de pagamentos e fintechs parceiras que desejarem oferecer o serviço.

A TecBan iniciará a oferta por 15 localidades, entre elas Piracuruca (Piauí), Garrafão do Norte (Pará) e Centro do Guilherme (Maranhão), em cem pontos comerciais habilitados. A expectativa é chegar a 100 mil até o fim do ano. O consumidor que quiser fazer o saque deverá fazer a operação no caixa, via cartão ou QR code, sendo este último gerado num totem na loja ou no aplicativo de algum banco digital ou fintech.

Na justificativa para a oferta do serviço, a empresa ressalta que 60% dos saques são realizados em regiões residenciais das classes C, D e E, principalmente nos rincões do país, uma população que não pode ser negligenciada.

Outra motivação é que o dinheiro em circulação corresponde a apenas 3,9% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, em comparação a 9% na Índia e 21% no Japão, o que significa que o país precisa ser mais eficiente para o dinheiro circular rapidamente. “Queremos promover inclusão financeira. O modelo de caixas eletrônicos tem limitação de custos e segurança”, disse ao Valor Jaques Rosenzvaig, diretor-geral da TecBan.

A pandemia evidenciou a importância do papel moeda e a necessidade de fazer o dinheiro circular. Com a distribuição de crédito e auxílio emergencial para ajudar famílias e empresas a atravessar a crise, o total de cédulas em circulação cresceu mais de 30% desde fevereiro, chegando a R$ 333,6 bilhões ontem, segundo dados do Banco Central (BC).

“O auxílio emergencial, sem dúvida nenhuma, trouxe mais volume. Mas não é só isso: muitas pessoas preferem ter o dinheiro para controlar o orçamento, principalmente em momentos de incerteza”, diz Rosenzvaig, da TecBan, que viu o volume de dinheiro sacado na primeira metade de julho crescer 25% em comparação a abril.

A nova empreitada da dona da maior rede de caixas eletrônicos do país é sinal de mudança dos tempos. Fintechs e bancos digitais surgiram baseados em tecnologia, com uma estrutura de custos inferior, para atendimento dos clientes sem conta em banco, que são justamente aqueles que usam mais dinheiro. Portanto, essas instituições financeiras precisam oferecer o saque, mas não estão dispostas a pagar caro pelo serviço. A solução para isso é usar uma rede que já está montada: os estabelecimentos comerciais.

O saque no varejo existe desde a década de 1980 nos Estados Unidos e na Europa, com vários modelos distintos de remuneração e cobrança na cadeia. No Brasil, as primeiras iniciativas começaram nos anos 2000 – a própria TecBan fez uma tentativa em 2006 e as bandeiras Visa e Mastercard, em 2010. No entanto, houve baixa adesão dos estabelecimentos comerciais, por questões de segurança, falta de troco ou remuneração inadequada.

Em comum aos modelos propostos na nova onda, está o fato de que o cliente final não deve pagar pelo serviço. Bancos e fintechs, que oferecem cartões ou contas digitais, vão ser os responsáveis por arcar com uma taxa a cada transação, cuja expectativa é que seja inferior àquela que eles pagam quando o cliente saca num caixa eletrônico. Já o estabelecimento comercial poderá ser remunerado pelo serviço prestado.

A PayGo, empresa de pagamentos controlada pelo banco digital C6, iniciou a oferta do saque no varejo no fim de fevereiro aos estabelecimentos que são seus clientes, em um teste no Estado de São Paulo. “Queremos ajudar a desentermediar e facilitar o saque”, diz Philippe Katz, CEO da PayGo. Segundo o executivo, os dados do BC mostram que apenas 800 cidades brasileiras têm caixas eletrônicos que permitem o saque fora de uma agência bancária.

Tecnicamente, o saque funciona como um pagamento no cartão de débito. O estabelecimento comercial é remunerado pela PayGo com cerca de R$ 1,50 por transação. Para comparar, pelo serviço de saque no caixa eletrônico, o C6 pode chegar a pagar

R$ 7, segundo Katz. Os saques são em valores fixos “redondos”, para facilitar o troco, sendo o mínimo de R$ 10 e o máximo de R$ 200 – com limite de três saques por dia até R$ 200. No total, 20 estabelecimentos participam do teste, mas a ideia é expandir para os 45 mil clientes da PayGo.

O assunto saque de dinheiro está no radar do regulador. No ano passado, o BC abriu uma consulta pública para lançar novas regras de “saques e aportes”. A motivação seria tornar o segmento mais competitivo, facilitando o uso por bancos menores e fintechs. De olho no tema, mais recentemente, o BC disse que o Pix, plataforma de pagamentos instantâneos que será lançada em novembro, deve incluir o serviço de saque no varejo em algum momento.

O setor de cartões também está se organizando em torno da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) para oferecer o serviço até o fim deste ano. Neste caso, as bandeiras vão decidir quanto o emissor do cartão deve pagar para a credenciadora por capturar a transação na maquininha, que, por sua vez, vai negociar um repasse ao varejista pelo serviço de entregar as cédulas aos clientes.

Varejistas apontam como vantagem para a oferta do saque a redução do custo logístico para lidar com papel moeda. A rede de drogarias mineira Araujo, por exemplo, gasta R$ 1.500 por mês com cada uma de suas 240 lojas, para lidar com transporte e segurança de dinheiro. Cerca de 45% do faturamento ainda é em dinheiro. A empresa entrou em um projeto piloto com a TecBan em Lavras (Minas Gerais), uma cidade onde só há caixa eletrônico dentro de agências bancárias.

“O objetivo não é aumentar o valor em caixa para saques, por questão de segurança e filas, mas aproveitar o que está no caixa para repassar ao cliente”, diz Antonio Araujo, diretor de logística e financeiro da rede. “Vejo como uma inovação, porque a loja de Lavras não teria um caixa eletrônico se pedisse, pelo baixo volume, mas está dando a opção de saque aos clientes.”


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