Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, e de Lojas de Conveniência, e de Empresas de Lava-Rápido e de Empresas de Estacionamento de Santos e Região – Sindicombustíveis Resan.

Postos & ServiçosNosso desafio é mostrar que não somos vilões

ABR 18, 2018

José Camargo Hernandes, presidente do Sindicombustíveis Resan, faz um balanço do setor nos últimos anos e aponta caminhos para o futuro. Confira!

Matéria publicada na edição de abril da revista Postos & Serviços.

No momento em que o Sindicombustíveis Resan completa 25 anos, o que podemos esperar do mercado seja ele com relação aos postos de combustíveis ou aos outros segmentos que representamos como entidade sindical?

José Hernandes: Nesses 25 anos, a história mudou muito. Assim como nós mudamos, a sociedade e o comportamento humano mudaram. Com a nossa atividade não podia ser diferente. Sofremos alterações, interferências políticas e de novas tecnologias. Basicamente, o que nos espera hoje é um futuro onde tudo será novo. E precisamos estar preparados para viver isso. Por exemplo, aquele motorista tradicional, que tinha o carro como seu primeiro bem durável, que o tratava com carinho, está desaparecendo. Esse era o cliente que estava sempre no posto e tinha preocupação com o produto que abastecia seu veículo. Hoje, essa rapaziada que são os filhos dos filhos ou os netos dos nossos clientes sequer pretende ter carro. E quando tem o utiliza como meio de transporte. Antigamente, existia aquela visão: quem serve quem? O motorista serve o carro ou o carro serve o motorista? É por isso que hoje o revendedor precisa estar atento à mudança de comportamento do motorista, que tem uma outra visão: ele quer produto de qualidade, mas quer preço também. O carro é uma ferramenta de trabalho para ele e não apenas mais um objeto de prazer e de lazer. O associado Resan (seja ele dono de posto, loja de conveniência, troca de óleo ou de estacionamento) tem que estar cada vez mais profissionalizado. É obvio que a gente conhece a realidade e sabe que, na sua grande maioria, são pequenos comerciantes e nem todos podem contratar uma empresa de marketing para cuidar das suas redes sociais, por exemplo. Mas, hoje, quem não estiver conectado, está perdido. E não basta ter internet, facebook ou site. Tem que cuidar de cada um, atualizar, responder aos clientes...

Quais são os desafios mais comuns?
Um problema sério para toda e qualquer empresa é a melhoria da qualidade no atendimento. Não basta mais ter frentista ou manobrista. Tem que ter vendedor. Não basta ter somente um atendente de lanchonete. Tem que ter o profissional de vendas.
Mas hoje manter um comércio aberto é muito custoso... Há outras questões que alteraram e muito o comportamento de uma empresa, entre elas a segurança do trabalho e a legislação ambiental. Tudo isso trouxe muitas responsabilidades e despesas também para o comerciante, o que não existia quando o Resan nasceu. Há 25 anos, o primeiro serviço contratado pelo sindicato para atender os associados foi o de saúde ocupacional. E a Labormed está até hoje conosco fazendo PPRA, PCMSO, ASOS, enfim. De lá para cá, mudou muito. Toda uma nova gama de produtos e serviços foi sendo inserido. E o Resan se dedicou a atender também a legislação ambiental, o que inclui a coleta dos resíduos ambientais. Fomos um dos primeiros sindicatos a fazer contrato com a Supply, empresa que faz a retirada dos resíduos. Depois vieram os treinamentos de CIPA, NR-20... Se o associado tivesse que contratar um especialista em RH e em segurança do trabalho, os custos seriam muito maiores do que ele tem hoje na mensalidade associativa.

Qual a sua visão sobre a importância do sindicato?
Ele é essencial. Três coisas são fundamentais no segmento de derivados de petróleo: sindicato ativo e atuante, um escritório de contabilidade eficiente e a softhouse que vai te dar todo o apoio de tecnologia. Tem pessoas que vão achar que o sindicato é dispensável, mas se você for sozinho tentar acompanhar toda a legislação, parte de contabilidade, parte técnica da ANP e legislação ambiental, não consegue. Os escritórios de contabilidade podem não ter essa expertise para conhecer a legislação de forma geral, muito menos a ambiental e comercial.

A Petrobras passou a divulgar o preço diário do combustível nas refinarias e causou um mal estar ao não tratar do assunto com transparência. Aliado à gasolina ter chegado à casa dos R$ 4,00, o nosso grande desafio é mostrar para o consumidor que não somos vilões?
O maior desafio nosso vai ser, realmente, durante algum tempo, mostrar para a opinião pública e para o consumidor que somos tão vítimas quanto eles. Existe uma percepção de que o posto de combustíveis é o grande vilão. Em meados de março (dia 16) a ANP começou a publicar, além do preço do produto vendido pela Petrobras (gasolina A e diesel A), a composição dos custos dos produtos até chegar ao preço de bomba. E isso mostrou claramente qual o percentual que fica na mão das distribuidoras e a parte que cabe ao posto. De certa forma é uma vitória que a ANP venha a público e coloque os pingos nos ‘is’. Daí a importância do trabalho dos sindicatos e da federação.

Tivemos vitórias importantes com relação às distribuidoras nestes 25 anos. Barramos a verticalização, mas daqui para frente, o que vai acontecer nessa relação entre as companhias o os postos?
A tendência hoje é da concentração de grupos eco nômicos. No nosso setor, temos visto crescimento das redes. E elas estão em negociação com as distribuidoras para obter vantagens financeiras, porque obviamente trabalham com volumes maiores. Lá atrás brigamos contra a verticalização e hoje estamos brigando para que as distribuidoras não ofereçam tratamento extremamente diferenciado para grupos econômicos em detrimento dos postos individuais (empresas familiares na maioria das vezes). Temos tentado passar para as distribuidoras que se elas derem ‘privilégios’ somente para as redes, esquecendo dos pequenos, elas estarão de uma certa forma acelerando o processo de morte desses comerciantes. E esses pequenos são postos parceiros, ostentam a marca, comercializam óleo lubrificante, participam dos programas de marketing das distribuidoras... Enfim, eles precisam ser prestigiados também e nem sempre estão recebendo tratamento digno. Por quê? Porque as melhores condições hoje estão mais voltadas aos grandes grupos e aos grandes volumes.

Algum expectativa quanto à reforma tributária?
Recentemente falou-se da unificação de ICMS, mas a gente sabe que é um trabalho que depende da vontade política dos governadores dos estados, que não querem acumular perdas, e ao mesmo tempo, reclamam do que perdem quando diminuem as vendas de combustíveis. Temos a expectativa do trabalho desse grupo do Ministério de Minas e Energia (Combustível Brasil) que já atuou na parte de GLP e, agora, aguardamos os próximos passos.

O que o sr. acredita que tenha que mudar na regulação das distribuidoras?
gente entende que a forma atual de vínculo entre o posto e a distribuidora torna a relação extremamente submissa. Infelizmente, em determinados momentos, ela se torna uma relação de vida ou morte, como se as companhias tivessem o poder de escolher quem vai viver e quem vai morrer. Então temos que mostrar que essa relação precisa ser melhor discutida, porque enquanto o revendedor que tem contrato é obrigado a só comprar dessa distribuidora, a contrapartida não é recíproca. Esta mesma companhia pode vender combustível para qualquer outro posto, desde que ele não ostente bandeira concorrente. Assim, a concorrência fica desigual. Qualquer tipo de aumento de preço que a distribuidora tenha que fazer, ela sabe que pode fazer sem que isso afete a relação com a empresa q ue ela mantém contrato. Ao passo que eu, revendedor, nem sempre posso repassar os aumentos para a bomba, pois sei que o meu consumidor tem outros postos concorrentes como alternativa. Em algum momento essa relação precisa ser melhor estudada. ANP não está sensível ainda. Ela entende que a norma é essa e que precisa ser cumprida, mas vamos insistir em mostrar as desigualdades.

Qual opção para o revendedor?
Ele tem que fazer uma análise do seu negócio ao final do contrato e ver se vale a pena virar bandeira branca. E isso depende muito do mercado. Temos casos de revendedores que viraram bandeira branca e depois retornaram ao embandeiramento porque perderam vendas. E temos casos em que o posto virou independente e teve sucesso. A gente aconselha o revendedor a trazer o contrato para análise dos nossos advogados antes de assiná-lo. Além disso, na medida do possível, ele deve trabalhar com equipamentos próprios e não depender de comodato financeiro. Faça um contrato de uso da marca por um período curto e por metas. Atingiu a meta, então tem a bonificação. Por quê? Se você tem contrato curto, ao término do contrato, retira a imagem da distribuidora e parte para outra. Não podemos mais assinar contrato de 8 ou 10 anos. Isso é loucura, pois o mundo muda como num passe de mágica.

O que é um posto do futuro?
É aquele que tem que ter tudo. Ainda lembro do tempo que meu pai me levava para abastecer o carro dele e existia a figura do posto multibandeira. É uma ideia que infelizmente não conseguimos levar para frente, mas esse seria o grande lance do ponto de venda. Você teria uma bomba e tanque de uma marca, assim como outra bomba e tanque de outra marca, e por aí vai. E aí você atenderia todo tipo de clientela. Você atenderia aquele que quer gasolina da BR e aquele que quer do bandeira branca. No passado tivemos esse posto no Brasil, inclusive em Santos... A possibilidade do multimarcas funcionaria como uma grande praça de alimentação, como tem nos shoppings. O cliente vai até lá e escolhe. É óbvio que isso poderia ser feito em um posto grande, mas é uma ideia e que entendo que possa ser o futuro.

E quanto ao self-service?
Essa é uma grande dúvida. Alguns revendedores nos questionam sobre as vantagens. Mas é preciso considerar, primeiro, que existe uma lei federal que proíbe esse modelo de operação. E ao mesmo tempo temos que pensar que para operar no self-service os postos devem ser grandes e ter vários bicos. Nesse modelo, o carro fica parado na bomba, enquanto o cliente vai na conveniência pagar pelo combustível e abastece na volta. Nesse mesmo tempo, no full service, você abastece três, quatro carros. Também teria uma perda muito grande de postos de trabalho. Mas são questões que precisamos avaliar permanentemente.


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