Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, e de Lojas de Conveniência, e de Empresas de Lava-Rápido e de Empresas de Estacionamento de Santos e Região – Sindicombustíveis Resan.

Petrobras despenca mais de 20% sob efeito Bolsonaro

23 FEV 2021

Fonte: O Globo

O mercado financeiro no Brasil terminou a segunda-feira com um forte impacto provocado pelo pelo anúncio de que o presidente Jair Bolsonaro trocará o comando da Petrobras, na sexta-feira.

Num dia de nervosismo, o dólar fechou em alta, a Bolsa, em queda e as ações da Petrobras registraram um tombo de mais de 20%.

As ações da estatal como o mercado esperava desde o fim de semana, perderam muito valor em um só dia. Os papéis ordinários (PETR3) recuaram 20,48% enquanto os preferenciais (PETR4, sem direito a voto) caíram 21,51%.

A queda das ações da Petrobras nesta segunda é a maior em percentual desde 9 de março de 2020, quando os papéis preferenciais caíram 29,7% com a crise desencadeada pela epidemia do coronavírus, a maior desvalorização diária da companhia, segundo dados da Economática.

Os papéis da petrolífera até entraram em leilão (quando as negociações ficam suspensas até que os preços se estabilizem) pela manhã por conta da queda acentuada.

O tombo da Petrobras pouxou para baixo o Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, que fechou com queda de 4,87% aos 112.668 pontos.

Na sexta-feira à noite, após o encerramento dos negócios na Bolsa de Valores de São Paulo, o presidente Bolsonaro anunciou que vai destituir Roberto Castello Branco do comando da empresa e substituí-lo pelo general Joaquim Silva e Luna.

Nesta segunda, Bolsonaro disse que não pretende alterar a política de preços, mas afirmou que "tem coisa que tem que ser explicada" sobre os reajustes de preços nos combustíveis.

Efeito Bolsonaro: quase R$ 100 bi em valor perdidos
Em apenas dois dias, a Petrobras perdeu quase R$ 98 bilhões em valor de mercado, segundo a Economática.

Foram quase R$ 100 bilhões perdidos em valor de mercado desde sexta-feira, quando o mercado começou a reagir às declarações de Bolsonaro sobre a estatal.

Foram R$ 28,2 bilhões na sexta e mais R$ 70,04 bilhões no pregão desta segunda. A petrolífera valia R$ 382,9 bilhões no dia 18 passado e hoje encerrou valendo R$ 284,7 bilhões.

"A Petrobras está perdendo cerca de R$ 100 bilhões em valor de mercado em apenas dois dias. É brutal. E não se sabe o que vai acontecer", diz Alvaro Bandeira, economista-chefe do banco Modalmais
Para Bandeira, se nos próximos dias o governo conseguir tocar o Orçamento, sinalizar o andamento de alguma reforma no Congresso ou mesmo sancionar a autonomia do Banco Central, as coisas podem se acalmar.

- Mas se isso não acontecer, por causa dessa política intervencionista na Petrobras, haverá impactos de toda a natureza. Teremos dólar, juros e inflação mais altos e Produto Interno Bruto (PIB) menor - diz Bandeira.

Queda forte também nos EUA
Em Nova York, as ADRs da estatal, papéis negociados na Bolsa americana, caíam mais de 20% no fechamento dos negócios no Brasil. Antes mesmo da abertura do mercado, os papéis já recuavam 16% no chamado pré-mercado.

- No exterior, o dia já não foi de otimismo nos mercados com a alta dos Treasures (títulos do Tesouro americano) puxando a alta do dólar. Mas por aqui são os fatos domésticos que pesam. A forma como a troca do presidente da Petrobras foi feita, traz incerteza, aumenta o risco país e atrasa a retomada da economia - diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil.

Nos EUA, o índice Dow Jones fechou praticamente estável com leve alta de 0,09%, o S&P 500 caiu 0,77% e o Nasdaq teve perda de 2,46%.

Na sexta, após o anúncio de Bolsonaro, as ADRs da Petrobras chegaram a cair 15% no 'after market', ou seja, após o fechamento do mercado nos EUA.

Isso depois de as ações da empresa terem fechado em queda de mais de 7% no horário regular de negociações na Bolsa brasileira, já refletindo declarações do presidente Bolsonaro sinalizando uma intervenção da companhia, sobretudo na sua política de preços de combustíveis.

Estatais em baixa
Papéis de outras estatais também são influenciados negativamente com a ingerência política do governo na Petrobras.

O Banco do Brasil também perdeu valor de mercado com o fantasma de ingerência política rondando as estatais.

A instituição valia R$ 94,8 bilhões no dia 18 e terminou esta segunda valendo R$ 82,2 bilhões, uma perda de R$ 12,6 bilhões nos últimos dois pregões.

A Eletrobras foi a que menos sofreu. Começou esta segunda com queda de quase 10%, mas recuperou fôlego com a expectativa de que uma MP acelere a privatização da companhia.

A estatal valia R$ 46,3 bilhões no dia 18 e hoje encerrou cotada a R$ 45,4 bilhões, uma perda de R$ 900 milhões em seu valor de mercado.

Na B3, as ações ordinárias da Eletrobras (ELET3) recuaram 0,69% no fechamento, mas chegarma cair quase 10% pela manhã.

O governo tenta apreesar a estatização da Eletrobras atraves de uma Medida Provisória, o que trouxe um pouco de calma ao mercado.

Já os papéis ordinários do Banco do Brasil do Banco do Brasil (BBAS3) perderam 11,65%.
Os papéis com maior peso no Ibovespa fecharam no vermelho.

BC intervém no câmbio
O dólar comercial fechou em alta de 1,26% e encerrou a sessão negociado na venda a R$ 5,45, maior cotação desde o dia 29 de janeiro, quando a divisa fechou a R$ 5,47.Na máxima do dia, a divisa bateu em R$ 5,53 e na mínima caiu até R$ 5,43.

Investidores buscaram refúgio no dólar com o aumento do risco do país e novas ingerências do governo na Petrobras, além da ameaça de interferência no setor elétrico.

Após o dólar bater em R$ 5,53, ainda pela manhã, o Banco Central anunciou um leilão de swap cambial, de 20 mil contratos, o equivalente a US$ 1 bilhão.

Reversão de expectativas
Júlia Monteiro, analista da plataforma de investimentos MyCap, ligada à corretora inglesa TP ICAP, observa que quando há intervenções do governo na Petrobras, a expectativa de receita e lucro da empresa cai entre 20% e 25% e o risco da empresa sobe cerca de 2%.

Ela diz que no caso da Petrobras a troca de comando pode atrapalhar o palno de negócios da companhia, o que significa atraso na venda de refinarias.

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- E mesmo que a venda das refinarias avance, o preço oferecido ser menor já que a atratividade dos possíveis interessados tende a se reduzir - oberva a analista. Diante desse cenário, diz Júlia, a expectativa do mercado é que o episódio da troca de presidente na Petrobras derrube o valor da empresa em 30%.

Risco-país dispara
Pela manhã, o rico-país medido pelo Credit Default Swap (CDS), uma espécie de seguro contra eventuais calotes do pagamento de títulos públicos, deu um salto.O indicador subiu de 163 pontos, na sexta-feira, para 186 nesta segunda.

Trata-se do maior nível de risco desde 6 de novembro, quando o indicador chegou a 189 pontos.

- Essa subida causa um aperto nas condições financeiras. As taxas de juros mais longas sobem, a confiança dos investidores cai e as empresas ficam propensas a investir menos - diz Rostagno, do banco Mizuho no Brasil.

Juros em alta
As taxas dos juros futuros dos Depósitos Interfinanceiros (DI) encerraram a sessão em alta, com as taxas mais longas subindo com mais força, diante do auento de percepção de risco do país.

As taxas do DI para janeiro de 2022 subiram de 3,44% na sexta para 3,51% e as do DI para janeiro de 2023 subiram de 5,14% para 5,29%.Já as taxas do DI de janeiro de 2025 subiram de 6,72% para 6,93% e as do DI para janeiro de 2027 saltaram de 7,37% para 7,58%.

O economista André Perfeito, sócio da gestora Necton Investimentos, destacou em seu relatório para clientes que a decisão do presidente Jair Bolsonaro aumenta o nervosismo nos mercados financeiros, o que deverá fazer com que o Banco Central inicie, já em março, um ciclo de aumento da taxa básica de juro, a Selic, que atualmente está em 2% ao ano.

"Objetivamente podemos supor que a elevação do risco irá pavimentar o início do ciclo de alta da Selic na reunião de março. Já víamos bons motivos para o início do movimento de correção da Selic; o que aconteceu na sexta apenas reforça as tendências observadas", afirmou o economista no documento divulgado neste domingo.

Setor bancário também é penalizado
As ações preferenciais do Bradesco (BBDC4) recuaram 6,56%, enquanto as PN do Itaú (ITUB4) perderam 7,28%.

As ações ordinárias da Vale (VALE3) caíram 2,48%, mesmo com alta de 1,4% no minério de ferro nesta madrugada na China.

As ações de empresas de energia elétrica também fecharam no vermelho após o presidente dizer que vai meter o dedo no setor.

Enxurrada de relatórios negativos
A queda das ações da Petrobras na sexta veio acompanhada de uma enxurrada de relatório de bancos e corretoras no final de semana piorando suas previsões para o resultado da companhia na Bolsa.

O Bank of American emitiu relatório nesta segunda-feira "rebaixando" a classificação dos papéis da Petrobras. O banco também retirou, da sua indicação de compras, as ações da petroleira brasileira e da Eletrobras. "devido ao aumento de incertezas".

Veja as avaliações
Corretora XP
A corretora XP, em relatório divulgado neste domingo, informou para seus clientes que a partir de agora passa a recomendar a venda dos papéis da estatal, mirando um valor de R$ 24 por ação.

Na sexta-feira, as ações ordinárias (PETR4) da Petrobras fecharam o pregão valendo R$ 27,33. As ações preferenciais (PETR3) encerraram os negócios a R$ 27,10.

"Vemos esse anúncio (de mudança no comando da estatal) como uma sinalização negativa, tanto de uma perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobras, como também por implicar riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio", explicam os analistas.

Durante videoconferência com integrantes do mercado financeiro no início da noite deste domingo, o analista Gabriel Francisco resumiu o relatório:

— Não faz sentido ter uma recomendação numa petroleira que não se beneficia de uma melhora nos preços do petróleo — disse.

Avenue Securities
Will Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, em Miami, afirma que o derretimento das ações da Petrobras ocorre em um momento de alta do setor. "Parece que a Petrobras vende outro produto, o 'não petróleo'". Ele afirmou que muitos estrangeiros estão classificando papéis brasileiros como "non investables" (que não deve receber investimentos).

— Não se trata de fluxo de caixa, de preço de petróleo, ou de variáveis que eu entendo e consigo modelar. Eu não consigo modelar a fala de um presidente —, disse ele, que afirma que o episódio serve para mostrar que a fala de que "o petróleo é nosso" é tão falso "quanto o coelhinho da Páscoa".

— O que está sendo precificado hoje no mercado brasileiro é a incerteza. E muita gente jogando a toalha, falando "poxa, o Paulo Guedes não vai aparecer?" Ele aparecendo é a única chance ainda de salvar um pouco a agenda econômica. De fato as declarações foram fortes e abrem margem para as especulações de que daqui para a frente será pura intervenção e estamos em um ambiente de eleição. Se isso é a realidade? Bom, a precificação dos ativos é outra, o mercado se antecipa e muitas vezes exagera, é verdade — afirmou Alves.

Segundo ele, o discurso de Bolsonaro e a troca no comando da Petrobras atrapalham o desempenho da empresa na bolsa, ainda mais se for comprarado com outras petrolíferas:

— De fato a gente tem visto neste ano um desempenho muito forte de Exxon, Chevron e várias outras empresas do setor de petróleo, há uma relação de longo prazo entre estes papéis e a cotação do petróleo, mas o mesmo não acontece com a Petrobras. Parece até que a Petrobras produz alguma outra coisa, vende carros, outra coisa que não tem nada a ver com o petróleo.

BTG Pactual
O BTG Pactual “rebaixou” as ações da Petrobras neste domingo, deixando de recomendar sua compra após a troca abrupta de CEO pelo presidente Jair Bolsonaro. A avaliação agora é “neutra”. Os analistas do banco também reduziram em 15% o preço-alvo dos papéis preferenciais (PETR3, sem voto) daqui a 12 meses, de R$ 34 para R$ 29.

“A falta de clareza para onde a Petrobras está indo agora é considerável. O controle do preço do combustível em meio à ‘reflação’ do preço do petróleo é um motivo óbvio de preocupação, mas pode nem ser o maior", diz o relatório.

"À medida que nos aproximamos de um ano eleitoral, nossa principal preocupação agora reside no que um novo CEO e, potencialmente, uma nova equipe de gestão significará para alocação de capital (…) e para o programa de venda de ativos”, resumiram os analistas do BTG.

Aberdeen Standard Investments
A gestora Aberdeen Standard Investments, dona de a 0,5% do capital social da estatal, enviou no último sábado carta aos membros do Conselho de Administração da Petrobras em que mostra preocupação com a mudança no comando da estatal.

A carta, a qual O GLOBO teve acesso é assinada por Devan Kalook, diretor global de ativos da gestora, e Eduardo Figueiredo, diretor da operação brasileira. Os executivos classificaran como negativa a interferência do governo. A informação foi antecipada pela colunista Míriam Leitão.

"Nossa visão de que mudanças no corpo de executivos atual da companhia, sem um devido racional e rigoroso processo, serão tomadas como negativas", diz a carta.

"Enfatizamos também que decisões sobre a nomeação ou substituição de executivos devem ser de exclusiva responsabilidade do conselho de administração da companhia, com ativa participação dos membros independentes, passando por uma análise objetiva de qualificações, em consonância com melhores práticas", completa o documento.